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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Eis que ela bate no vidro trazendo a saudade

cró·ni·ca 

adjectivo

1. Que dura  muito tempo.

2. [Figurado]  Inveterado. Enraizado. Entranhado.

3. [Medicina Diz-se da doença permanente no indivíduo.



Eu tenho de escrever, mas lá fora está a chover e as palavras fogem-me por entre os espaços vazios, onde a chuva não pode alcançar. Ou talvez a chuva tenha limpo todas as palavras de todos os sítios e tornou-os vazios. Ou fui eu que me tornei vazia. 

Tornei-me vazia no dia em que parti. Escrevo sem pensar e risco. A única coisa que consigo escrever é isto. 

Falas-me numa crónica, mas a única crónica que conheço é o amor. O meu amor. O teu amor. O nosso amor (talvez). 

A chuva apagou o barulho da tua voz, e eu continuo a tentar escrever. Pareço ouvir-te lá ao longe, mas tudo não passa de uma ilusão. Serei também eu uma ilusão? Existo? Existo porque escrevo para ti ou porque tu me está a ler neste momento? Sou porque tu és ou sou porque amo? 

Estás aí? Estás aqui? Grito. A chuva responde-me ao bater na janela e o som das gotas faz-me lembrar o dia em que olhei os teus olhos pela primeira vez. O mundo parece pequeno demais para guardar o nosso amor. E é por isso que eu sou vazia. Porque tentei pedir ao mundo para guardar o nosso amor enquanto eu parti, mas o mundo roubou-me de ti. 

Eu estou aqui e tu estás aí. Também está a chover do teu lado do mundo? Espero que sim. Para me sentires ao pé de ti. 

Porque estás tão longe de mim? Porque tive eu de partir? Não quero ser mais vazia sem ti. Porque só vale a pena ser vazia quando tu roubas o meu amor para ti. 

Tenho de escrever uma crónica sobre ti. Tornei-me vazia no dia em que parti. Vazia de mim, porque não sou nada sem ti ao pé de mim. 


(Amo-te e essa é a única doença pelo qual vale a pena morrer.)



Uma Didascália
por Carolina

É dia de passeio

Enquanto passeava pelas ruas dos meus pensamentos, sentia toda a angustia que qualquer homem sente por pensar e chorava. Nem todos os homens presentes no mesmo presente que eu são dotados deste dom, não o de pensar, sim o de sofrer. Chorar é sofrer de tristeza, chorar é sofrer de alegria. Não sei quantas vezes vou ter que escrever que só escrevo porque amo, mas sei que acabei de escrever isso, amo-te.
Quase nunca consigo escrever para ti, mas não seria capaz de escrever se não fosses tu. A rua dos meus pensamentos é feita dos teus sorrisos e percorrida com o teu amor e isso faz-me chorar porque penso, porque sofro e porque isso me traz alegria. Chorar é berrar com os olhos. É berrar de alegria. É berrar de saudades e tu ainda nem te levantaste da nossa cama. É berrar com as palavras dos olhos. Os teus olhos são o quadro mais belo do Picasso. Enquanto passeava pelas ruas dos meus pensamentos, perguntei-me porque é que tenho que sentir tudo o que sentir implica e o que vi foi tudo aquilo que não dá para explicar. Porque eu só sinto o que não se explica. Se assim não fosse não seria justo para ti, tu mereces uma história impossível, uma historia impossível de contar. Nunca ninguém vai conseguir fazer da nossa historia um filme de amor porque o que eu sinto é teu e eu quero ser invejoso ao ponto de sentir tanto, com tanta força, com tantos olhos aos berros, que isto seja só para ti. Se alguém ousar em sentir por ti ou por outra pessoa aquilo que eu sinto, eu deixo de escrever o que está nas ruas dos meus pensamentos. Prometo. Enquanto ninguém conseguir alcançar o que sentir, significa para nós, isto será nosso. Mesmo sem saberes o significado da palavra nosso. Mesmo sem saberes dos meus olhos, dos meus berros, dos meus berros com os olhos. Mesmo sem saberes da minha rua, da minha rua de pensamentos onde estão os meus sentimentos. Será que o meu coração é feito de sentimentos. Mesmo sem saberes quem é o Picasso e que ele fez um quadro os teus olhos ao ler este texto. Mesmo que nunca saías da nossa cama. Isto será nosso. Enquanto passeava pelas  ruas dos meus pensamentos, vi o teu rosto, um papel, uma caneta. Vi isto.


Uma didascália
por Miguel 

sábado, 26 de agosto de 2017

Uma insónia

Eu não durmo, eu nunca durmo. São 03:12 da manhã e eu não durmo, eu nunca durmo. Neste momento estou a observar a lua, ela é como eu também não dorme. Não durmo porque todos os dias vive em mim uma esperança de que o dia a seguir vai ser melhor e isso, essa esperança não me deixa dormir, consome-me como se eu fosse a última coisa que se pudesse comer num campo de concentração. Passaram vinte minutos desde que escrevi a palavra "concentração" e desde esse momento eu não consegui dormir, eu nunca durmo. Gosto de escrever à noite mas nunca gosto das coisas que escrevo e por isso, penso sempre, sempre que mais valia dormir. Do meu lado direito tenho um cinzeiro cheio de beatas, é o reflexo das minhas insónias. Do meu lado esquerdo tenho um livro de poesia é o reflexo do meu amor. Quanto mais escrevo, menos durmo. A regra da vida é fazer as coisas com amor, eu faço as coisas com sono e com todo o amor que isso implica. Espero que não haja mal por ser assim. Quando não durmo, eu nunca durmo. Fico a ouvir todo o silêncio que existe numa serra e acreditem que é a melhor musica que posso dar ao meu coração. Acho que estou apaixonado. Neste momento queria estar a dormir em vez de estar a vomitar todos os meus pensamentos em frente à lua mais bonita do mundo. A lua mais bonita do mundo vê-se da varanda do meu quarto. É isso, é por isso que eu não durmo. Enquanto aqui estive a conversar contigo, a pensar no que sinto e a sentir tudo aquilo que penso, já se passaram mais quarenta minutos. Sabes que horas são? Amanhã tenho que me levantar cedo e para isso conto com a ajuda do café, o café é o melhor perfume que existe, sabes? Eu gosto de café, eu bebo café, café, café, café. Será por isso que não durmo, eu nunca durmo. Não consigo parar de beber café, não encontro nada que cheire melhor do que o café. Só não paro de escrever porque sei que vais ler, eu escrevo para ti. Estarei apaixonado? Acho que estou apaixonado. Tudo o que faço é por ti, se calhar toda esta esperança que me corre no corpo é devido a ti, aos teus olhos e ao teu coração que lê as coisas que escrevo enquanto deixa cair umas lágrimas de amor sobre o papel. Já te tinha dito que não consigo dormir? Que nunca durmo? Daqui a uns minutos a tinta da caneta vai acabar, acaba sempre por volta das quatro e trinta e seis minutos da manhã, por norma nesse momento, vejo os olhos, deito-me, ali, na minha cama, e vejo e sonho contigo e com uma lua, uma chávena de café, uma caneta e um papel, tu a chorar a rir e eu a beijar-te com os meus olhos, as tuas lágrimas o meu coração, o teu sorriso... Eu não durmo, eu nunca durmo. Esperança. Eu tenho esperança.


Uma didascália por
Miguel Moisés