segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Marcia e o Método

Representar não é algo que se faça. Em vez de se fazer, acontece. Se começar pela lógica, provavelmente desiste-se. Pode ter uma preparação consciente, mas os resultados vão ser inconscientes.
(...)
O actor cria com a sua própria pele e sangue tudo o que as outras artes tentam descrever de alguma forma.
(Lee Strasberg)


Este verão surgiu-nos a oportunidade de fazer um workshop de introdução ao Método de Lee Strasberg com a actriz, encenadora, dramaturga e formadora Marcia Haufrecht.

Vamos hoje partilhar com vocês a nossa experiência conjunta, abordando os aspectos mais importantes para nós ao longo da semana.

Podemos começar por vos dizer que as nossas expectativas para este workshop eram bastante elevadas, e que apesar de não ter sido um trabalho completamente novo para nós, foi algo que sentimos que precisávamos de trabalhar mais a fundo para podermos passar a outra fase e outro estado. Infelizmente a Carolina não pode ficar os dias todos do workshop, e também por essa razão pensa que teve de fazer tudo um pouco mais à pressa, o que fez com que não tivesse explorado tão à séria como gostaria.

Se nos perguntarem se concordamos com este método no trabalho do actor, a resposta é que não concordamos completamente, e não é o método que pensamos adequar-se a um actor de teatro, e é por essa razão que este método é também tão direccionado para cinema e televisão, mas existem exercícios que retirámos para o nosso trabalho pessoal enquanto actores e pessoas. O método trabalha maioritariamente com as nossas próprias emoções e vivências pessoais, o que pensamos ser prejudicial em alguns pontos, porque mexe muito directamente connosco próprios e por isso pode tornar-se inconstante e descontrolado, já para não falar dos danos que pode causar em nós próprios, por vivenciarmos, experienciarmos vezes e vezes sem conta emoções negativas que já tenhamos passado.

O workshop iniciou-se com uma conversa entre todo o grupo onde a Marcia nos perguntou um a um as coisas básicas de apresentação e depois perguntas mais profundas, como qual o momento mais triste na nossa vida, ou o momento mais embaraçoso ou mais feliz.

Carolina: Confesso que não gostei desta parte. Sou uma pessoa pouco dada a falar das minhas coisas e não gosto de trabalhar com os meus momentos mais tristes ou até mesmo com os mais felizes, porque para além de trazerem más recordações (no caso dos tristes), traz também a melancolia e a tristeza o facto de não poder mais voltar aos momentos felizes. Por outro lado, não conhecendo toda a gente e sabendo que este nosso mundo tem sempre pessoas nas quais não se pode confiar, torna-se difícil para mim falar da minha vida assim, sem reservas, logo no primeiro contacto.
Miguel: Digo-vos que também não sou muito apologista deste tipo de conversas ou de iniciação ao trabalho, mas sou bastante ingénuo e ao invés de me ter rejeitado a fazer o exercício, acabei por partilhar esse momento (talvez a partir de agora não o volte a fazer). Não consigo perceber bem o porquê deste tipo de perguntas, penso que isso já devia estar ultrapassado, o próprio Stanislavski, no ultimo livro, explica que afinal o actor deve ter um pouco mais de cuidado com as suas memórias mais tristes. Fui para lá para aprender, e comecei logo a aprender na primeira conversa ...

Passado isto, os trabalhos durante o workshop concentraram-se em exercícios de relaxamento e concentração do corpo e da mente, onde tínhamos bastante tempo para nos concentrarmos e relaxarmos, usando normalmente uma cadeira ou então deitados no chão.

C: Estes exercícios, são talvez os que eu mais trouxe comigo e mais utilizo, desde o workshop, não só para o trabalho de actriz mas também para mim própria em situações de stress.
M: Estes exercícios, foram muito reconfortantes para mim, já os tinha feito na universidade, mas também já tinha esquecido alguns pormenores dos exercícios e voltar a eles, souberam-me muito bem, assim como o café, pela manhã.

Fizemos também muitos exercícios sensoriais, onde usávamos o toque, o cheiro, a visão, o paladar e a audição. No primeiro que fizemos tivemos a opção de o fazer com a situação da primeira bebida que bebemos quando o dia começa, no nosso caso foi o café.

C: Descobri que tenho muitas dificuldades em recriar sabores, e em ter todas as sensações ao mesmo tempo, especialmente ter os sons e o continuar com o paladar. Neste sentido este exercício foi bom para mim para perceber que preciso de trabalhar este lado da minha imaginação. Foi um exercício difícil para mim, porque sentia que não estava a conseguir chegar ao objectivo. Fizemos também exercícios sensoriais com o momento de tomar banho e com o lugar onde nos sentimos mais seguros, introduzindo uma pessoa, também imaginária (mas que existe na realidade).
M: Foi um exercício muito fácil para mim, adoro café. Foi a primeira bebida que bebi naquele dia, sem ser aguá, e é me muito simples fechar os olhos e recriar sensorialmente o seu cheiro, sabor, temperatura, textura da chávena, aliás, acho que até vocês ao lerem estas linhas o fizeram.

Todos tivemos um pequeno diálogo no qual trabalhámos em pares, onde tínhamos de recriar o espaço das cenas, também maioritariamente imaginário, e onde usávamos muito o trabalho sensorial feito anteriormente.

C: Correu muito bem para mim na primeira improvisação, mas na segunda foi muito complicado por termos um texto a seguir e em inglês. É complicado "jogar" com o outro sem ser na nossa língua, e isso fez com que o trabalho fosse menos interessante, porque por estarmos demasiado concentradas no texto, acabamos por largar as outras partes que constroem a cena.
M: Como éramos muitos, eu não tive oportunidade para fazer uma primeira improvisação. Então o texto foi me dado na quinta feira e tinha que apresentar o exercício na sexta. O meu texto era um texto difícil, envolvia muitos sentimentos amorosos pela outra personagem e esse era o grande desafio. No meu exercício teria que haver beijos na boca, por isso conversei muitas vezes com a rapariga que ia fazer o exercício comigo para saber se ela ia estar confortável com isso, só o faria se ela estivesse à vontade para tal, senão iria sempre parecer tudo falso e o exercício não faria sentido.
Não vos digo que foi fácil, não foi. Quando o exercício terminou a Marcia disse que se ela estivesse a fazer algum casting para o filme daquele texto, eu seria o escolhido para aquela personagem e isso deixou-me muito contente, sabe bem ouvir este tipo de coisas quando te esforças a sério, apesar do exercício ser para mim, para eu crescer, é bom ver o esforço reconhecido.

C: A experiência em si do workshop foi muito enriquecedora porque me fez relembrar exercícios antigos, nos quais nunca mais tinha pegado, e que são realmente úteis no trabalho prático, especialmente porque eu sou daquelas pessoas que está sempre a mudar o seu tipo de aquecimento, e por isso estes "novos" (antigos) exercícios vão servir-me por uns bons tempos. Gostei muita da forma como me senti a fazer o exercício com texto na primeira vez, porque me senti realmente no sítio que estava a imaginar e consegui mesmo visualizar a cena e sentir-me lá, estava bastante disponível e a receber e dar à minha colega, sendo que nos fomos desafiando positivamente ao longo da cena. Mas foi também bom entender que nem sempre conseguimos chegar lá, e foi bom ter consciência de que ainda tenho dificuldade em ter atenção a muitas coisas diferentes ao mesmo tempo.
Basicamente o que vos posso dizer é experimentem!
M: Para mim, este workshop devia ter ido mais longe, devia ter me levado mais além. Não aconteceu, não sei se foi porque eu não deixei ou se foi pela maneira como está desenhado. Aquilo que retirei dele foi bom mas sinceramente não o voltaria a fazer, cada actor tem uma linha onde se sente melhor a trabalhar, e esta não é a minha... Posto isto, considero que foi uma experiência razoável. Mas façam vocês este Workshop e depois digam nos o que ele foi para vocês. 




Uma Didascália
por Carolina e Miguel










quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O que são Literaturinhas?!

Já vos falei das Literaturinhas que costumo fazer com o teatromosca? Já vos disse o quão divertido é fazer? No que consiste? Como se faz? A sério? Ainda não vos escrevi sobre isso?!
As Literaturinhas são leituras encenadas que o teatromosca leva as escolas e a salas de espectáculos. Tem como grande objectivo mostrar aos espectadores (mais jovens) os clássicos da literatura infanto-juvenil.

E para vos conseguir explicar isto de uma forma explicita, as Literaturinhas nascem de uma encenação de dois actores por texto (por norma), baseiam-se em jogos teatrais de compreensão e riso fácil de forma aos mais jovens conseguirem entender tudo. Têm como regra a utilização de objectos de cena que estejam "mais à mão", ou seja, o que se encontrar nas salas das escola por exemplo, podem e devem ser usados e cada Literaturinha deve ter um tempo estimado de 30 minutos.

Deste ciclo já participei em três, no  O Macaco da Rabo Cortado , O Quarto Rei Mago, O Romance do 25 de Abril  e  A Alice no Jardim.
Para vos ser sincero, o que me deu mais gosto fazer, foi O Romance do 25 de Abril talvez pela história que fala por si, mas o primeiro que fiz foi O Macaco do rabo Cortado e tive o privilégio de fazer com um grande actor e amigo Artur Dinis, que nos deixou a seguinte mensagem:

"Primeiramente, quero agradecer o convite da Carolina Figueiredo e do Miguel Moisés para poder partilhar convosco o que foi, para mim, esta aventura animada: O macaco do rabo cortado.
O primeiro contacto surge através do acompanhamento do trabalho realizado pelo teatromosca que, a partir de pequenas histórias encenadas para crianças, dá origem ás literaturinhas.
Orientados pelo Pedro Alves, director artístico do teatromosca, iniciámos os ensaios que rapidamente deram lugar a momentos de criação e de muita diversão, afinal de contas, contar histórias a crianças é isso mesmo!
A meu ver, poder contar histórias a crianças torna-se um privilégio. Temos a oportunidade de brincar com as nossas palavras e de dar asas à imaginação dos mais pequenos. Podemos contar-lhes contos hoje e esperar que amanhã sejam eles a contar a mais alguém. É assim que as histórias vão passando de geração em geração e poder fazer parte desse ciclo, aparentemente infindável, torna-se muito gratificante.
Seguidamente, dirijo-me ao meu companheiro de histórias. Já fazem alguns anos que partilhamos o mesmo palco, e isso é uma grande mais valia quando trabalhamos juntos. O facto de nos conhecermos mutuamente em palco permite-nos criar com relativa facilidade, conseguindo acatar as ideias e esclarecer dúvidas de cada um arranjando as soluções necessárias para a construção de um bom produto final.
Em suma, fazer teatro para crianças, com um grande amigo de palco e poder contribuir para o seu crescimento são, para mim, os ingredientes necessários para uma boa dose de diversão e aprendizagem"

Se quiserem saber mais alguma informação, deixarei aqui os link's do teatromosca:
http://teatromosca.weebly.com/
https://www.facebook.com/teatromosca1/
https://www.facebook.com/teatromosca/
(Sim, eles têm dois facebooks)




Uma Didascália por
Artur e Miguel

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Somos os actores da nossa própria desgraça

(Imagem Modos de Ver: Sintra)


Hoje vou contar uma das experiências mais assustadoramente belas que tive a assistir ou a representar numa peça de teatro.

Confuso não? Assistir ou representar? É que na verdade venho contar-vos a minha experiência enquanto espectadora do Modos de Ver: Sintra, um audiowalk onde na verdade nós somos os actores, nós fazemos a história, ao mesmo tempo que assistimos ao que vamos ouvindo. Os audios são diferentes em cada pessoa, e há momentos em que estamos em grupo e outros em que estamos separados, consoante o que nos é guiado.

Ora, vocês podem achar que o que vos descrevo é tudo menos uma peça de teatro, mas na verdade, os audio que me calharam no meu percurso guiavam-me muitas vezes para uma ideia de espectáculo próprio, onde as ideias de grupo, atenção, caminho, direcção, objectivo e interacção estão sempre a ser incutidas de forma por vezes subtil, de outras vezes bastante directa. Cabe a nós a decisão de seguir ou não as instruções e no meu caso eu tive a liberdade de ir pelo caminho que quisesse.

Foi Assustador. Desafiante. Desconfortável. Desprotegido. Protegido. Apaixonante. Avassalador.

Foi uma mistura de sensações porque eu me perdi. Literalmente. Eu fiquei perdida no meio do audiowalk, e isto serve para os dois sentidos da palavra perdida. Perdida no espaço e perdida na alma.

Para não vos contar tudo, porque apesar da temporada deste ano já ter terminado, penso que existirão outros audiowalks deste género nos próximos anos e por outros sítios, por isso vou apenas dizer-vos o essencial desta experiência, para que no futuro possam ser vocês a viver tudo ou ainda mais do que aquilo que eu vivi.

O audiowalk aconteceu em Sintra, e no audio que me calhou, a minha primeira indicação era para me afastar do resto das pessoas e caminhar na direcção que eu quisesse, assim o fiz, ao longo da caminhada tive momentos em que vi alguns dos outros participantes/actores, mas tive também momentos em que estive completamente sozinha.

Bom, o grande momento dá-se quando me apercebo que estou sozinha, no meio de uma zona que eu não conheço bem, (eu não sou de Sintra, passo lá muito tempo, mas sou uma pessoa muito má a decorar caminhos, e por isso facilmente me perco), para além disto, eu tenho dificuldade em andar sozinha à noite por razões que não vêm ao assunto neste momento, então deparei-me com uma situação bem complicada quando a meio da minha "caminhada"/representação oiço a indicação do audio/encenador para chegarmos todos a um determinado lugar, dentro de pouco tempo, e a avisar-nos que no início e durante o nosso percurso, foi-nos dando sinais e dizendo para não nos esquecermos dos outros e do grupo, estarmos sozinhos mas ao mesmo tempo em contacto com o outro. E agora? Pensei eu. Estava no meio de alguma estrada escura, já não tinha ninguém ao pé de mim do audiowalk, não tinha horas, (porque me recusei a utilizar o telemóvel, visto que uma das indicações iniciais foi a de não o utilizarmos), e portanto quando me deparei com esse momento, confesso que cheia de medo, corri, muito, quase que como pela minha vida. Procurei indicações, tentei recordar-me de caminhos que conhecia, e cheguei bem antes do tempo ao lugar estipulado. Senti-me segura quando encontrei uma pessoa/actor que também estava no meu grupo do audiowalk.

Os meus pés chegaram à terra, e o meu coração acalmou. Consegui superar o meu medo naquele momento, mas a minha adrenalina estava inconstante. Estava assustada e feliz ao mesmo tempo. Durante a minha caminhada vi sítios que nunca tinha visto, encontrei paisagens que nunca tinha reparado e pisei o chão de uma forma consciente. Estava atenta ao que me rodeava, era só eu, por momentos estava só eu o palco e o encenador, ao mesmo tempo que também estive eu sozinha no palco, e eu própria criei a minha história com base nas histórias e nos textos que fui ouvindo. Os textos guiavam-me para um outro lugar, e guiavam-nos os sentidos. 

Dei por mim a correr de braços no ar, olhar-me nas montras das lojas, seguir o caminho das pedras, imaginar histórias e acreditar no que ia ouvindo, confiei no meu audio/encenador, e fiz a minha própria história (ou deverei dizer desgraça?)

Com tudo isto já estamos todos juntos em grupo, e a partir deste momento iremos permanecer em grupo, deslocamos-nos para uma outra zona, quando chegamos deparamos-nos com uma realidade que poderia ser ficção, volto a sentir o perigo nas veias, mas sinto-me meia dormente ainda da experiência anterior, estamos num local considerado problemático em alguns aspectos, mas prosseguimos com a nossa história ao mesmo tempo que nos encontramos apreensivos. Continuamos a caminhar, e paramos num jardim, assim grande, onde provavelmente à volta o perigo continua à espreita, mas ali, no meio, sentimos-nos seguros.

Sentimos o fim a aproximar-se, e com o fim, o nosso encenador indica-nos que devemos encontrar a pessoa que tem o número de auscultador anterior ao nosso, quando nos encontramos com a pessoa, que me é desconhecida, mas ao mesmo tempo conhecida por ter partilhado o mesmo momento que eu, temos então de contar o nosso dia, e temos de dançar e tocar na pessoa. No nosso colega de palco, aventura, caminhada, no fundo um colega desta humanidade e vida. As pessoas têm muita dificuldade em fazê-lo, vi-o pelo meu parceiro e pelo que observei dos restantes pares, há dificuldade em criar conexões, em conhecer as pessoas, em ouvi-las e em nós próprios conseguirmos mostrar-nos, dar-nos a conhecer. E ali, naquele palco que partilhámos, fomos um grupo, criámos conexão, todos precisámos uns dos outros para avançar.

No fim, acabámos deitados na relva (ou não, é opção de cada um, eu deitei-me) a apreciar a beleza do mundo e das estrelas, e a sentir todas as sensações ecoarem na nossa pele. Ali, no meio do sítio mais inesperado, foi possível encontrar calma, paz.

Confesso que acabei e foi quando cai com os pés na terra que me apercebi dos "perigos" que tinha ultrapassado, e este audiowalk foi sem dúvida uma vitória pessoal para mim.

Quando olho para trás, penso que na verdade o facto de passarmos pelos sítios onde normalmente não passamos, o criarmos o nosso próprio caminho dentro do caminho idealizado e o facto de dar um novo olhar aos locais por onde caminhamos, o irmos pelos caminhos estreitos e escondidos, tudo isto vai ao encontro da ideia de Deleuze e Guatari, no Tratado de Nomadologia. 

E com isto vocês perguntam-se afinal ela foi actriz ou foi espectadora?
Vão experimentar tudo isto e tirem as vossas próprias conclusões. Vão sem medo de se confrontarem com vocês próprios. Vão para aprenderem a conhecer-se a vocês e a observar e fazer parte de algo contigo e com o outro. Vão para aprenderem a saber ouvir. Vão para se sentirem vivos.




Uma Didascália
por Carolina


(Aqui fica o trailer deste espectáculo)




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Um Francês no Palácio de Oeiras

Hoje venho falar-vos do primeiro convite que recebi para integrar um elenco, depois de me licenciar e vocês irão perguntar-se porque isso é assim tão relevante e depois de se perguntarem (vá perguntem lá) eu vou explicar-vos.

Este romance entre mim e este projecto, começou de uma forma inesperada de tal maneira que até posso afirmar com toda a convicção que a forma como tudo aconteceu dava para ser realizada num filme.
Uns dias antes, tinha visto na internet que se iria realizar um casting para integrar um elenco de uma curta-metragem onde o que procuravam era um actor com as minhas características físicas, enviei logo os meus dados e fui chamado para ir fazer o casting. No dia do casting, enquanto esperava e ia decorando o texto que me tinha sido entregue naquele mesmo dia, recebo uma mensagem de um professor meu, que tinha leccionado a disciplina de Interpretação durante dois anos do meu secundário. Pediu-me para enviar o meu currículo e poucos dias depois contactou-me para integrar o projecto que se iria realizar no Palácio de Oeiras realizado pelos Sons & Ecos.
Desta pequena pequena introdução, temos que reter dois pontos importantes, o primeiro é que, como já vos disse muitas vezes, o trabalho compensa sempre e foi por isso que aquele professor se lembrou de mim. O segundo ponto que é o cómico é que fiz um casting para um projecto e fiquei seleccionado para outro.

Este projecto não foi fácil (algum o é?) porque senti que tive poucos ensaios e isso deveu-se aos horários que o Palácio tem e quando ensaiávamos, aos sábados, tinha sempre que ser durante muitas horas o que fazia com que fosse muito cansativo. Depois porque a personagem principal não iria conseguir estar em todas as apresentações, ou seja, tinha que fazer ensaios com dois actores diferentes para a mesma personagem e vocês sabem o quão difícil isso é, todos nós temos o nosso ritmo, a nossa maneira de trabalhar o texto de o dizer, etc ... e eu tinha que me moldar a isso em praticamente todos os ensaios.
Como este projecto é no Palácio de Oeiras, vocês já se devem ter apercebido que a peça é de Época e esses textos, para mim, são sempre mais complicados de colocar no corpo, porque temos que encontrar a corporalidade certa daquele tempo.

A estreia, apesar de ter havido alguns problemas de texto, correu muito bem e o público, pelo feedback que deu gostou muito. Mas, eu quero vos falar da segunda apresentação, porque essa apresentação deve ter sido a mais difícil que tive, nesta minha pequena carreira de actor, porque o actor com quem contracenava teve uma branca. Sim, uma branca praticamente total. Sim. Ele esqueceu-se do texto quase todo, e então? Então tivemos que improvisar. Não é que eu não goste de o fazer ou que me sinta muito desconfortável ao fazê-lo, mas quando se trata de um texto do século XVIII torna as coisas mais complicadas. Apesar disso o resto do espectáculo correu bem e pelo que soube, ninguém do público se apercebeu do que se tinha passado.

Desde a primeira apresentação o elenco tem vindo a sofrer alterações, mas isso não fez com que a peça não mantivesse o nível que nos comprometemos que tivesse, quando aceitamos este desafio. Para alem disto, no elenco encontram-se mais duas pessoas que fizeram o secundário comigo.

Estou a gostar muito de estar a participar neste projecto porque para além de já ter trabalhado texto d'Época (ver aqui) fazer uma personagem do séc XVIII ou de qualquer outra século passado é me sempre muito desafiante. Esta peço foi representada pela primeira vez quando o ainda Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal, fez 68 anos de vida. Foi representada como forma de celebração pelos seus amigos e familiares. Isto porque como é do conhecimento publico o Marquês de Pombal gostava muito de teatro. Ou seja, nesta peça eu faço de Henrique José filho do Marquês que vai representar na peça, ou seja, é uma personagem dentro de outra personagem e se quiserem perceber melhor, venham ver!



Quero vos dizer que teremos ainda mais duas apresentações no Palácio de Oeiras que serão nos dias 25 de Novembro e 9 de Dezembro e para além destas, sei ainda que iremos levar a peça à Régua e a Pombal, mas ainda não temos datas definidas.



Uma Didascália
por Miguel

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Moro no rés-do-chão do Pensamento.

Sinto na minha cabeça a velocidade do giro da terra,
E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,
Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros
Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,
Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,
Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para o Abstracto,
Para o incontrolável, Ali sem restrições nenhumas,
A Meta invisível todos os pontos onde eu não estou, e ao mesmo tempo...

Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resolver a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
Saber onde deitar-me para estar a passear por todas as ruas,
Saber onde...
Passagem das Horas, Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa)



Desta vez não venho falar da experiência mais positiva do mundo para mim, mas sim da experiência mais complicada, que penso ter vivido até hoje, neste meio teatral.

Também não vou falar do que correu mal, nem do que correu bem. 

Vou falar do que me marcou. 

Vou falar de Álvaro de Campos. 

Vou falar da vida, da rotina, do desespero, da perda, do vazio, do sentido, do fim. 

Ironia ou não, o excerto com que se inicia esta publicação pertence a um texto que se intitula de Passagem das Horas, ora se vos disser que desde que começou até que acabou eu desejei com todas as minhas forças que tudo acabasse muito rápido, talvez fiquem com uma ideia de como a passagem das horas, dos minutos e dos segundos foi complicada e demorada para mim. 

Andei perdida a grande maioria do tempo e dei tudo o que podia de mim para me conseguir agarrar ao projecto, eu literalmente estava disposta a vender a minha alma ao diabo para conseguir sobreviver lúcida a todo o processo. 

Tudo parecia para mim um grande burrão, o avança e não avança, a falta de motivação, o não conseguir compreender, as constantes mudanças, o cansaço, o desespero, a máquina. 

A M-Á-Q-U-I-N-A, o sentimento de ser uma máquina, a triste vivência do dia-a-dia. A consciencialização do quão máquinas nós somos, nas mãos dos outros e nas nossas próprias mãos.

Quando se pega em Fernando Pessoa e nos seus heterónimos, damos sempre de caras com a dura realidade das sensações. O que ele nos diz é tão cru, tão real, tão estrangulador, tão igual a nós que chega a causar dor.

Nós vivemos todos as passagens de Álvaro de Campos, todos éramos Álvaro, e todos nos identificávamos de alguma forma com o que ele nos diz, e isso foi talvez a melhor coisa que o projecto nos deu.

Confesso que não sei quantas vezes "morri" neste projecto, nem quantas vezes fui obrigada a "sobreviver", talvez este projecto tenha sido um pouco do que Álvaro de Campos sentiu tantas vezes na sua existência, talvez nós, sem nos apercebermos, tenhamos passado pelas mesmas fases que ele passou, e talvez tenha sido isso que fez com que o sentimento de vitória final tenha sido maior do que o esperado.

Fomos Decadentes. Sentimos o tédio, o enfado, o cansaço, a náusea, o abatimento, a necessidade de novas sensações.
Fomos Futuristas/Sensacionistas. Celebrámos as máquinas, a energia mecânica, a civilização moderna. Fomos poluídos fisicamente e mentalmente pela vida moderna. Transgredimos as leis, vivemos o excesso de sensações.
Fomos pessimistas. Ficámos cansados, sentimos-nos vazios, abatidos, incompreendidos, frustrados, revoltados, desiludidos, nostálgicos, sozinhos.

(Acreditem, ironia ou não, isto tudo aconteceu de alguma forma.)

E apesar de tudo isto estar a parecer dolorosamente complicado, no fim, ficou um vazio. Quando tudo terminou, parecia que me tinham arrancado parte de mim, como se afinal não tivesse sido assim tão mau, ou como se mesmo quando as coisas não são tão boas como gostaríamos, se nos entregarmos e dermos de nós, elas vão ter sempre alguma coisa nossa, e é por isso que

«Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar o Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.»
(Fernando Pessoa)

Quando te sentires prestes a desistir, se neste momento quiseres desistir, lembra-te que há sempre alguma coisa que podemos levar connosco nas experiências que ultrapassamos, nada é totalmente mau, mesmo que pareça dolorosamente difícil, tu consegues, tu aguentas, e vais sentir no fim que valeu a pena. Porque na vida nada vem de forma simples, e estamos sempre a ser postos à prova, caso contrário, não estaríamos a viver, estaríamos apenas a existir.


Deixo-vos uma imagem do meu mapa intensivo deste projecto, se não perceberem o que é, não faz mal, eu também não sei bem o que me deu para ser tão eu.


«Perco-me todo de mim, já não vos pertenço, sou vós.»




Uma Didascália
por Carolina



sábado, 26 de agosto de 2017

Uma insónia

Eu não durmo, eu nunca durmo. São 03:12 da manhã e eu não durmo, eu nunca durmo. Neste momento estou a observar a lua, ela é como eu também não dorme. Não durmo porque todos os dias vive em mim uma esperança de que o dia a seguir vai ser melhor e isso, essa esperança não me deixa dormir, consome-me como se eu fosse a última coisa que se pudesse comer num campo de concentração. Passaram vinte minutos desde que escrevi a palavra "concentração" e desde esse momento eu não consegui dormir, eu nunca durmo. Gosto de escrever à noite mas nunca gosto das coisas que escrevo e por isso, penso sempre, sempre que mais valia dormir. Do meu lado direito tenho um cinzeiro cheio de beatas, é o reflexo das minhas insónias. Do meu lado esquerdo tenho um livro de poesia é o reflexo do meu amor. Quanto mais escrevo, menos durmo. A regra da vida é fazer as coisas com amor, eu faço as coisas com sono e com todo o amor que isso implica. Espero que não haja mal por ser assim. Quando não durmo, eu nunca durmo. Fico a ouvir todo o silêncio que existe numa serra e acreditem que é a melhor musica que posso dar ao meu coração. Acho que estou apaixonado. Neste momento queria estar a dormir em vez de estar a vomitar todos os meus pensamentos em frente à lua mais bonita do mundo. A lua mais bonita do mundo vê-se da varanda do meu quarto. É isso, é por isso que eu não durmo. Enquanto aqui estive a conversar contigo, a pensar no que sinto e a sentir tudo aquilo que penso, já se passaram mais quarenta minutos. Sabes que horas são? Amanhã tenho que me levantar cedo e para isso conto com a ajuda do café, o café é o melhor perfume que existe, sabes? Eu gosto de café, eu bebo café, café, café, café. Será por isso que não durmo, eu nunca durmo. Não consigo parar de beber café, não encontro nada que cheire melhor do que o café. Só não paro de escrever porque sei que vais ler, eu escrevo para ti. Estarei apaixonado? Acho que estou apaixonado. Tudo o que faço é por ti, se calhar toda esta esperança que me corre no corpo é devido a ti, aos teus olhos e ao teu coração que lê as coisas que escrevo enquanto deixa cair umas lágrimas de amor sobre o papel. Já te tinha dito que não consigo dormir? Que nunca durmo? Daqui a uns minutos a tinta da caneta vai acabar, acaba sempre por volta das quatro e trinta e seis minutos da manhã, por norma nesse momento, vejo os olhos, deito-me, ali, na minha cama, e vejo e sonho contigo e com uma lua, uma chávena de café, uma caneta e um papel, tu a chorar a rir e eu a beijar-te com os meus olhos, as tuas lágrimas o meu coração, o teu sorriso... Eu não durmo, eu nunca durmo. Esperança. Eu tenho esperança.


Uma didascália por
Miguel Moisés

O Fazedor de Teatro



«Só porque acreditamos em nós
é que resistimos
suportamos
o que não podemos mudar
porque acreditamos na nossa arte.
Se não tivéssemos esta crença
mesmo que seja só na arte dramática
há muito tempo que estaríamos no cemitério.
A nós nada nos interessa 
a não ser a nossa arte
nada mais. 
Possessos da loucura
de certo modo sem vergonha.»
(O Fazedor de Teatro, Thomas Bernhard)

Porque aquilo que nos move é a arte, e porque para mim perderia o sentido presentear-te com algo não relacionado com a minha arte, para te agradecer seguires a nossa Didascália, a nossa arte, e por em conjunto fazeres também parte deste nosso pequeno mundo.

Obrigada por nos acompanhares nesta jornada, por estares neste preciso momento a ler isto, e por acreditares connosco que ainda existe espaço para sonhar.

Seremos loucos? Talvez. O mundo é dos loucos, dizem eles. Então eu quero ser louca contigo, para que o mundo possa ser nosso.



Uma Didascália
por Carolina