quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Desce como um vaso velho e quebrado, sobe como um vaso novo



No início eras só uma bola de papel
 Esculpi-te como um artista que cria o seu objecto
Pintei-te com as cores dos meus sonhos
Vesti-te com o tecido da minha alma
Dei-te vida com o meu corpo
Criei o teu som a partir da minha voz
Encontrei-te a meio do caminho e contigo encontrei-me no meio deste bonito labirinto
Onde descobri que do nada se pode criar tudo
E que o tudo não precisa de muito para ser credível
Basta darmos um pouquinho de nós ao nosso boneco
E de repente, o nosso boneco transforma-se numa pessoa, e nós transformamo-nos no nosso boneco
 E é então nesse momento que a magia acontece. 

(Carolina Figueiredo)

O Velho, A Viuvinha


Trago-vos desta vez o testemunho de mais um daqueles momentos bonitos que aparecem nas nossas vidas e que nos salvam das fases mais negras deste fantástico (ou não) mundo que nos rodeia. 

A vida é um constante rodopio entre momentos que nos afogam, e momentos que nos agarram e nos trazem à superfície. Talvez seja por isso que vos escrevo sempre dos momentos que me trazem à superfície, em vez de vos falar daqueles que nos rodeiam quando estamos quase a afogar-nos. Porque são os momentos que nos trazem à superfície que nos impedem de nos afogarmos na monotonia solitária do dia-a-dia, e são esses que vale a pena recordar, por serem eles que nos mantém vivos enquanto seres-humanos. 

Apresento-vos o Mamulengo, um género de teatro de marionetas, típico do Brasil, que me foi tão bem demonstrado pela Izabela Brochado e o Marcos Pena. O Mamulengo surge num workshop integrado numa disciplina optativa de Marionetas, que tive este ano na Universidade de Évora. 

O workshop consistiu numa semana intensiva onde nos foi dado um pequeno guião, uma personagem da qual construímos o nosso próprio boneco de luva, as noções mais importantes de como manusear o boneco e de como representar a cena em que estávamos inseridos utilizando os conceitos básicos da representação com marionetas e no Mamulengo em especifico, sendo que o workshop terminou com uma apresentação das cenas trabalhadas. 

Este workshop marcou-me especialmente pela beleza do trabalho feito com os bonecos, a forma como nos afeiçoamos e construímos o boneco, é igual à forma como criamos uma personagem dentro de nós, e é especial apercebermos-nos de como o boneco é também uma parte do que somos. 

O trabalho com marionetas é bastante minucioso e faz-nos explorar ao máximo a forma como a nossa mão pode transmitir todas as emoções do dia-a-dia, eu nunca pensei ser possível mostrar tanta coisa através dos nossos próprios dedos. É preciso diferenciar bem as acções, e observar muito bem como nos comportamos para podermos reproduzir no nosso boneco. Temos também de lhe dar vida através do olhar, que apesar de ser estático tem de estar em contacto com o público e com a personagem com quem interage. É também um belo trabalho de equipa, porque os bonecos têm de dar foco a quem está a falar, de modo a que o público entenda quem é a personagem que está a falar. 

A parte mais engraçada é o que acontece por de trás do "palco" onde os bonecos se movimentam. A forma como os actores se organizam e movimentam faz com que o boneco se torne mais real, até porque a voz reproduz-se em consequência do que acontece com o nosso corpo, por isso, se as experiências estiverem a passar por nós elas vão passar para os nossos bonecos, tornando-os pessoas.








Esta experiência deu-me foco, deu-me novas perspectivas do trabalho do actor, deu-me um novo domínio das minhas mãos e das minhas emoções. Mostrou-me como podemos dar vida ao inanimado de uma forma tão mágica e sobretudo deu-me esperança e felicidade. É um trabalho cheio de boa energia, que nos desafia e nos faz querer fazer mais e melhor, trabalha também bastante a nossa improvisação, pois os textos são à base do improviso e do público, os bonecos estão em constante contacto com o público, e têm de actualizar-se consoante o que os outros bonecos lhes oferecem.

Despeço-me com a letra do cântico que utilizávamos para aquecer, que me parece tão adequado à situação, como à vida, o Mamulengo fez mesmo de mim um "vaso" novo. 

O Mamulengo vai entrar na Ólaria do povo, o Maulengo vai entrar na Ólaria do povo, desce como um vaso velho e quebrado, sobe como um vaso novo, desce como um vaso velho e quebrado, sobe como um vaso novo. 




Uma Didascália
por Carolina 


P.s.: Este texto não pretende explicar a base do Mamulengo, nem como funciona, mas sim dar o testemunho da experiência em si do workshop. Para mais informações sobre o tema deixo-vos aqui um link, e estou disponível para publicar o meu relatório sobre o workshop caso seja necessário.







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