segunda-feira, 7 de agosto de 2017

«O homem nada sabe sem queimar os seus pés no fogo ardente.»




As experiências só passam verdadeiramente por nós quando já estão ultrapassadas. Ultrapassadas no sentido em que não mais podemos retornar a elas. Pelo menos, comigo, tem acontecido deste modo. Ou no tema especifico deste texto, aconteceu assim. 

A experiência de que vos vou falar aconteceu há cerca de 3 anos, quando eu me encontrava no meu último ano da Escola Profissional de Teatro de Cascais (EPTC), e foi esta que vos escolhi contar por ter sido o momento em que eu realmente senti que tinha dado o salto, psicologicamente e artisticamente, não no sentido exterior, mas interior, quando eu finalmente saí da minha bolhinha e decidi abraçar as experiências com todo o meu ser. 

Confesso que só me apercebi de que tinha sido aí o ponto de viragem, quando há pouco tempo estava a pensar sobre todo o meu processo pessoal ao longo destes anos. Falo-vos do momento em que fizemos Antígona de Sófocles, as pessoas que já fizeram parte da EPTC, ou que estavam comigo nessa altura, vão achar estranho eu não escolher falar d'As Criadas ou da minha PAP (Prova de Aptidão Profissional), mas na realidade foi com o processo da Antígona que eu mais aprendi. Aliás para falar deste processo, que foi feito com a professora Beatriz Batarda e o apoio do professor Miguel Graça, não posso ignorar os processos anteriores que tive com a professora Beatriz, logo muitas das coisas que vos vou dizer, podem ter acontecido antes da Antígona, mas apenas foram aplicadas por mim nesse momento. 

Acabada a contextualização, passemos para a parte prática. Não vos vou fazer uma descrição do que aconteceu. Nem pouco mais ou menos irei contar-vos a história da Antígona. Vou apenas mostrar-vos o que ficou comigo até hoje, aquilo que me marcou e que me fez mudar, ou acordar. 

Lembro-me do dia em que a professora Beatriz me disse que o caminho para sair da bolha era meu, que ela apenas nos dá as bases, as condições para o fazermos, mas somos nós que temos de decidir e de tomar a atitude de o fazer. Demorei 1 ano a conseguir chegar a esse momento, e soube que até esse momento tudo o que tinha feito tinha sempre ficado dentro da linha do certo, do pouco profundo, do "bemzinho", mas aquele "bemzinho" que não chega. 

Cheguei lá através da dedicação, quando me propus realmente a fazer o que tinha de ser, a ir mais longe, a deixar-me ir, a permitir-me sair do conforto. Foi-me atribuída a personagem Antígona, e mais uma vez eu preferia ter ficado na minha zona confortável e ter feito uma personagem mais "simples", lembro-me de estar a atravessar uma fase pessoal complicada e de me ter agarrado à Antígona como se fosse a única esperança que me restava, talvez tenha sido isso que me fez dar o salto. 

Quando nos encontramos perdidos procuramos desesperadamente uma forma de dar sentido à vida. Eu encontrei, mais uma vez, o sentido da minha vida no teatro. Talvez tenha sido por isso que no momento não me apercebi da importância dos conhecimentos que adquiri, de forma não consciente. Porque sei bem que não aproveitei nem metade do que a professora Beatriz me tentou ensinar, mas as coisas que ficaram, foram fortes o suficiente para ficar incorporadas dentro de mim, o suficiente para hoje eu compreender a sua importância e perceber o seu sentido. Lá está, nós só percebemos as experiências, ou só compreendemos a sua função e importância quando elas já só fazem parte da nossa memória. Aqui entra a citação que dá titulo a este texto, é uma citação da peça de que vos falo, que faz todo o sentido em relação ao que vos tento transmitir, aprendemos quando caímos, quando ultrapassamos as barreiras, quando aceitamos os desafios e os abraça-mos. 

O trabalho feito com a professora Beatriz é muito à base da relação do texto com a emoção, ficou-me sempre gravada esta sua frase. «a emoção é uma consequência do texto», trabalhamos sem forçar emoções, o texto ganha grande peso na acção, fizemos um trabalho exaustivo com os três círculos de atenção (1º circulo- eu, 2º circulo - eu e o outro, 3º circulo - eu e o mundo), fizemos muitos exercícios de grupo de imaginação/improvisação, para criação de espaços e momentos, trabalhámos com as acções de movimento do Laban, tanto em termos de corpo como de modo de dizer o texto (empurrar, deslizar, pontear, torcer, flutuar, chicotear, sacudir, soquear) e também com a direcção (directa ou indirecta), peso (pesado ou leve), velocidade (rápida ou sustentada), fluência (livre ou controlada). As grandes bases do trabalho feito são sempre as 7 palavras que vocês encontram na imagem: objectivo, obstáculo, acção, conflito, emoção, actualizar, circunstâncias adquiridas

Apesar de a Antígona ter sido o meu ponto de viragem, não o foi pela apresentação em si, mas sim pelo processo. O momento em que nos deixamos de preocupar com os outros, de tentar agradar os outros, ou de querer fazer bem, esse momento só chegou mais tarde para mim. Mas foi aqui que eu senti que podia fazer algo de diferente, que podia realmente conseguir alguma coisa, foi aqui que eu finalmente entendi o que exige ser actor, e foi aqui que eu deixei a Carolina deixar de comandar tudo, e passar a ser algo entre eu e mais um mundo. 

Aproveitemos mais o que nos tentam dar no aqui e agora, porque um dia percebemos que o agora não volta mais, e ficamos apenas com um bocadinho do que poderia ter sido muito. 

Para que a esperança nunca abandone os vossos corações, mesmo nos momentos mais negros, lembrem-se

«Existe sempre uma porta de saída.»

- Beatriz Batarda



Uma Didascália

por Carolina



P.s.: Para quem não conhece a história da Antígona, deixo aqui um link onde poderão encontrar um resumo. 







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